A alternativa entre ter e ser, central nos ensinamentos de grandes Mestres da Vida como Buda, Cristo ou Mestre Eckhart, não se revela apelativa numa sociedade onde a própria essência do ser parece residir, cada vez mais, no ter. Nesta obra, Erich Fromm aponta para a necessidade de uma nova e profunda revolução socioeconómica e psicológica capaz de fazer desviar a rota catastrófica que o nosso planeta descreve, e evitar, assim, o desastre social, psicológico e ecológico que se afigura no horizonte.
No que respeita á substituição dos verbos por substantivos que têm vindo a apoderar-se da nossa linguagem desde o século XVIII(segundo nos informa o autor), parece-me que este critica friamente o verbo “Ter”, sem no entanto, nos apresentar os argumentos a favor deste. Parte desde já, que “Ter” está conotado negativamente, pois “Ter” igual a “egoísmo”. Compreendo apesar de tudo a sua posição quando defende o modo “Ser” e pinta exacerbadamente de negro o verbo “Ter”. Está claro, que quer vigorar a sua visão, o seu exagero serve pois para compreendermos o seu ponto de vista. Contudo, julgo tratar-se de uma visão um tanto hostil, quando exclui a utilização do verbo “Ter” nos exemplos ”tenho uma ideia” substituindo por ”eu penso” e “tenho vontade” por “eu quero”. Ora, na minha opinião, quando “penso”, não tenho que ter necessariamente uma “ideia”, isto é, para ter uma ideia, obviamente que terei de pensar, mas julgo que o oposto não acontece. Assim sendo, quando digo “eu penso”, ninguém poderá saber se tenho ou não uma ideia, pois poderei estar a analisar o meu passado, revivê-lo(quem sabe?!) poderei estar a questionar-me sobre as perguntas filosóficas da vida e nada disso se refere ao facto de eu ter uma ideia. O mesmo se passa quando digo “eu quero”, trata-se pois de um estado de espírito. Julgo que o verbo querer é uma afirmação concreta imposição e uma atitude a que me submeto, enquanto que ter vontade expressa apenas uma ideia ou sentimento que possuímos, já que faz parte de nós, e da qual não nos podemos separar. O facto de autor conectar automaticamente o verbo “Ter” a “Posse”, “Egoísmo”, leva-nos a compreender, que ele nem considera que por vezes quando possuímos, nem sempre o queremos só para nós. E por mais contraditório que possa parecer atrevo-me até a dizer que por vezes possuímos, para partilhar, dependendo obviamente da motivação de cada um. Está claro pois que nós não pudemos dar nada, sem primeiro a possuirmos. Não posso dar nada, se não tenho nada.
Mesmo quando utiliza “a Origem dos termos” como apoio á refutação do verbo “Ter”, utiliza um exemplo que não julgo ser muito eficaz, pois toda a gente sabe que a linguagem varia de tempo para tempo e lugar para lugar. Tal como a nossa palavra “saudade”, que apenas os Portugueses a usam. Apesar de não ser usada por mais ninguém, não significa que tenha uma conotação negativa, portanto também não seria por aí, que conseguiria destruir de vez o verbo “Ter”.
Bem, com isto não quero certamente rebaixar por completo a estatura de uma grande obra que certamente ganhou o seu prestígio e reconhecimento, admiro Fromm, não haja duvida que sim. E aliás se ele teve coragem para escrever esta obra, achei que também teria coragem para apresentar esta crítica, como homenagem às mentes abertas e a abolição do conformismo cego. No entanto há que haver respeito, e eu repeito Fromm...a única coisa que critico é o facto de não ter pensado na possibilidade de uma relação saudável entre o Ter e o Ser, a Harmonia que poderá estar subjacente, creio que reenforçou, o autor bastante bem, no facto de que necessitamos de ter...senão como poderiamos dar, a questão é o que é que necessitamos de ter de facto? Dignidade, controlo, harmonia, paz e sobretudo o amor! Não queremos criticar o verbo ter, mas as pessoas que o utilizam de uma forma tão errada. E porque é que utilizam de forma tão errada, devido á falta do amor, do amor verdadeiro que Erich Fromm fala na Teoria do Amor! Então não creio que esta rivalidade de ser e ter vá evitar o desastre social, psicológico e ecológico que se afigura no horizonte. Mesmo, que tentassemos mudar o Ter para Ser, o que está de facto implícito é o facto de que a mente é que tem de mudar e não as palavras, as pessoas continuariam a ser materialistas, possessivas, egoístas, mesmo no modo ser. Não duvido que seja, uma boa fundação para a mudança da pessoa, mas estado degradante na qual as pessoas se encontram necessitaria muito mais do que isso, necessitaria da força do AMOR.
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